segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Não foi por mal!

Vez por outra assistimos pasmos a fenômenos que a natureza nos apresenta como quem quer mostrar o quanto somos frageis e ignaros sobre as nuances de seus caprichos. Nos invade com as águas dos oceanos, leva milhares de roedores a se lançarem no mar ou joga baleias nas areias para encontrarem seu fim. Diria um incauto que são misteriosos os caminhos do senhor! Bota mistério nisso. Com tanto poder precisava destruir daquele jeito as cidades de Sodoma e Gomorra? Aquela formiguinha que passou sua existência protegendo a rainha, aquele potrinho que acabara de nascer, os porquinhos que inocentemente chafurdavam na lama, foram todos vítimas inocentes de um ataque de fúria sulfúrica de seu criador. Não poderia enfartar os infiéis? Tornar diabéticos os glutões e servi-los com gangrenas? Tenho que concordar, são realmente misteriosos seus caminhos.

Tudo porque a humanidade da época inaugurou uma maneira tropical de ser. Os gregos rechearam os textos sobre seus deuses com os mais Froideanos e Nelson Rodrigueanos casos de amor. Minos e sua família eram um poço de vergonha. Gilgamesh, o rei semi deus sumeriano de Uruk (atual Iraque), citado em poema de quase 5.000 anos tem uma história conturbada com a deusa Ishtar envolvendo inclusive a morte de uma de suas crias, simbolizada por um touro (ish = esposa em hebraico), uma relação no mínimo estranha com seu inseparável (até a morte) amigo Enkidu e acaba buscando apoio em Utnapishtim (ou Noé ?) herói sobrevivente de um dilúvio que tem a planta da imortalidade roubada por uma serpente.

Solta a imaginação irmão!

O próprio rei Davi, tremendo mau caráter e algoz de Golias inaugurou o jeito máfia de ser, fazendo acordo com os inimigos de seu amigo, que não sem um bom motivo, como mostrou a história, sofria de síndrome persecutória. Esse rei, ungido com a benção do divino enviava seus melhores soldados para a frente de batalha a fim de dar apoio e calor humano às suas mulheres, hábito adotado por Napoleão anos mais tarde. Pois é, essas coisas sempre aconteceram e mereceriam do Pai um entendimento mais divino da alma que Ele colocou em cada humano de sua obra. Mas foi tudo feito sempre com as melhores da intenções.

Também não foi por mal que aviões da força aérea dos EUA bombardearam uma caravana de civis fugindo dos horrores da guerra da Bósnia Herzegovina. A intenção era de proteger. Seguindo a ladainha do “não foi por mal” é que se desvia verba de saúde e educação, aprisionando milhares dos nossos na teia do anafalbetismo e entregando outros tantos nas mãos de Tânatus.

Com a intenção de voltar rapidinho para seus afazeres, motoristas estacionam nas vagas de idosos e deficientes. Claro que se danem velhinhos e portadores de deficiência ainda que só por um minutinho, porque não foi por mal.

A falta de um olhar cuidadoso para nosso vizinho é uma lacuna presente na alma de homens de bem.

Muitas vezes fazemos coisas em nosso favor, sem se aperceber que isso terá um custo para outros e é esse o cuidado que temos que ter nas mais inocentes atitudes. Podemos não tê-las feito por mal, mas se as fizemos foi por certo pela falta do bem.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Dos Deuses e da Sorte

Hermanos

O que os deuses mais gostam é ver os homens fazendo planos. Reza o folclore mitológico que muitas das vezes que ouvimos trovões, na verdade são eles rindo de nós.

Não compro muito essa história de povo escolhido. Diferentemente disso acho que foi esse povo que escolheu ser o escolhido. Não posso crer em um deus que demonstre sua preferência por um dos filhos, que faça um time perder para o meu ganhar e que sendo de tal forma faccioso, possa ser eleito como parâmetro de justiça. Em momentos de destempero destrói cidades com tudo que nela existe ou inunda o mundo. Se fomos criados à sua semelhança, até que já o entendo melhor, porque por vezes os filhos nos tiram do sério.

O que Tique, a face grega de Fortuna, deusa romana da sorte mais detesta é encontrar alguém dormindo. Vira as costas vai embora e não volta nunca mais. Ela tem horror a preguiça e a indolência. Imaginem então essa figura em uma repartição pública brasileira!

É vero que embora estivesse quase nas mãos de Morpheu, vivia ávido e atento, sedento por uma oportunidade e jamais deixaria escapar uma como a que Tique colocou em minhas mãos.

Não escolhi Lia. Quando encontrei minha Valquiria fui tomado por tamanha e arrebatadora paixão que não nos sobrou opção. Aceitamos então termos sido escolhidos um para o outro, desdenhamos os sorrisos sarcásticos dos céus e fizemos mesura para Tique.

Nunca foi uma guerra fácil, um passeio no parque, tivemos que fazer desde sempre o melhor possível e estarmos sempre alerta. Já disse antes que o torno mecânico que Deus usou na confecção de Lia é de ouro e platina, foi usado apenas uma vez e está exposto em um pedestal lá no céu.

Esteve sempre à frente do tempo, criando, organizando tudo e me empurrando para cima. Agora que todo circo foi montado, que o paciente parece querer sair da UTI, Lia precisa de mim assim como eu dependo dela.

Isso toma do começo ao fim do meu dia e “muita mais faria se não fosse para tão grande amor tão curto o dia” (Daprés Camões - modificado).

Frequentemente surpreendo-me cantarolando as canções que me acostumei a entoar como hinos. Entre meus desejos está a superação dessa batalha insana pela vida e a volta ao meu lugar no coral.

Escrevo à minha família Kol Haneschamá para ratificar que tenho vocês como meus irmãos e que no tempo em que estivermos rindo por último e ofertando presentes à Tique estarei também cantando com a família outra vez.

Um baita shaná tová para todos porquê nós merecemos, lutamos por isso e no fim vamos rir por último vendo nosso time ganhar.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Comprando Gado

Tendo surgido a oportunidade aceitei a oferta do destino e decidi investir em gado. A natureza se encarregava de aumentar a quantidade de carne e o governo era responsável por aumentar o preço. Além de lucrativo era divertido e saudável, no meio da semana ir para a fazenda, muitas vezes ainda de madrugada, tomar café com meu fraternal amigo e sair para comprar algumas cabeças nas fazendas próximas, isto é, vizinhas cerca de algumas horas de estrada. Foi mais uma oportunidade de ver e aprender coisas novas.

De certa feita ao chegarmos em uma dessas fazendas ao sul de Minas, o dono das vaquinhas e meu amigo começaram com uma conversa fiada que parecia não ter fim; sentido então nem pensar;

- ... e Neuzinha, casou ?
- tá lá né
- é fogo uai!
- com esse governo também ...
- e o tempo?! Nada ajuda sô!
- ...e essas vaquinhas felizes, pastando...
- ...

Isso foi indo foi indo e na minha cabeça nada batia com nada naquele papo furado, até que em dado instante já beirando o desespero e sem paciência cutuquei meu amigo e perguntei baixinho:

- Não vamos comprar o gado?!
- Estamos comprando! – sussurrou de volta.

De fato, após depreciar os pobres quadrúpedes tendo em contrapartida rasgados elogios do proprietário, depois de viajar na maionese por quase duas horas, divagar sobre a natureza e vagar por terrenos oníricos que mais pareciam um pesadelo, saímos de lá com 52 vaquinhas, todas prenhas. Um grande negócio para quem nem estava negociando segundo meus pobres critérios.

Deixando de lado o aspecto cômico e folclórico, chama a atenção a dificuldade que por vezes todos temos de fazer uma leitura correta daquilo que estão nos dizendo em uma linguagem própria.

Vivemos hoje na terrinha um movimento parente da primavera árabe que tanto lá como cá sacudiu representantes e representados e ainda assim, nesse paraíso de Cabral o que parece é que o gigante se virou para o lado e voltou a dormir. Dorme o gato, os ratos fazem a festa, mas a mensagem foi clara; a Bastilha está balançando!

Essa surdez seletiva está fortemente presente nas relações de massas assim como nas pessoais. O que mais vemos nesses tempos modernos é a incapacidade de se fazer uma leitura correta do que está sendo dito em alto e bom tom em um linguajar original, através de gestos, tristeza e indignação.

O que verdadeiramente surpreende é o espanto que estampa o rosto dos que se recusam a crer que Bastilha cai, que Roma era o mundo e caiu, que três mil anos divididos em apenas 17 famílias dinásticas acabou na Praça Tahir e que o povo, assim como cada um de nós, de uma forma ou de outra acaba por se fazer ouvir.

É bom ter sempre em mente que embora a conversa pudesse parecer tola e perdida, estávamos de fato comprando gado.

domingo, 7 de abril de 2013

Um Anjo da Guarda e um Caso Médico


Aquela sim poderia ser definida como uma relação “unha e carne”. Se pudessem um enfiaria a unha na carne do outro. Desde que se viram pela primeira vez foi ódio à primeira vista sem qualquer explicação sob a ótica da lógica e do bom senso, como acontece sempre quando se trata de sentimento.

Ela trazia na carga genética a memória de algum traço europeu exteriorizado naqueles olhos verdes sob uma pele morena, um nariz afilado, dentes perfeitos e gestos delicados, enquanto ele era a personificação da simpatia e querido por todos. Não era nenhum Adonis mas nunca se afastara dos esportes e quando se cruzavam nos corredores do hospital onde ambos trabalhavam o ar se enchia de uma carga elétrica pronta para explosão. Alguns colegas afirmavam que mais de uma vez ouviram ruídos estranhos nestas ocasiões. Grunhidos talvez.

Articulações celestiais o colocaram em um leito do CTI em estado muito grave. Por mais de uma vez evoluiu com edema agudo do pulmão, seus rins pararam de funcionar, sua musculatura não respondia aos comandos e seus esfíncteres ignoraram seus deveres e pudores, permitindo expor seus dejetos mais de 30 vezes ao dia.

Quem mais, com paciência angelical, doces palavras de apoio e um olhar que ele jamais pensara poder enxergar nela, estava ali ao lado fazendo seu asseio tantas vezes quanto necessário fosse.

Exatamente aquele conjunto genético híbrido!

Quando de volta às suas atividades, ele a procurou e vaticinou: -“… o que você quiser ou precisar de mim eu faço questão de saber”.

Várias vezes foram vistos juntos no refeitório do hospital conversando ou gargalhando e por vezes sérios apenas trocando figurinhas. Não se passava um dia em que ele não procurasse saber se haveria algo que pudesse ser feito não para agradar aquela santa, mas para aplacar a culpa que frequentemente lhe queimava a alma por ter pensado mal.

Para o desapontamento dos românticos de plantão, não quis o destino que se consumasse na carne o que havia começado nas garras de um ódio sem sentido. Cada um seguiu seu caminho e nunca mais se viram. Os traços daquele rosto estão gravados em minha memória como se nunca fossem envelhecer. Estou convicto de que cada qual guarda com um carinho especial a lembrança do que poderia ter sido uma grande amizade e respeito ao profissionalismo ou apenas mais um caso médico.

Acho que deveríamos nos dar mais chances para enxergar um amigo no nosso vizinho, porque quem sabe pode ser nosso anjo da guarda.

domingo, 16 de setembro de 2012

O Refém - Um Homem Bom

De repente, depois de anos de cruel exercício olhando sempre para fora, surpreendeu-se mais centrado nele mesmo do que no resto do universo. Nada como um susto para dar um novo norte à sua existência. Uma espada da Dámocles pairando sobre a cabeça, a percepção da finitude e de fragilidade que leva a um misto de penoso desalento e revolta. Acho honestamente que lhe proporcionou um crescimento mais produtivo que alguns anos de terapia. A vida é esse corredor polonês. O que conta no final não são as bordoadas que levamos no caminho, mas os passos que conseguimos dar adiante.

Embora preso a uma rotina de vida em que era comum sacrificar seus interesses em prol de outrem, agonizava dentro dele o refém que embalara por quase meio século. Já verbalizava a palavra “não” com uma estranha satisfação de vitória. Estava gostando! A compreensão de que o amor incondicional é na verdade um suicídio espiritual o colocou no caminho da troca desse prazer, cujo feedback positivo o alimentava com a  vida - literalmente com vida.

Não tinha mais vários problemas, mas apenas percalços. Como não existe essa história de virar a página e fazer uma nova vida, ainda trazia no lombo a carga do passado. O que acontece hoje é o somatório do que fizemos até então. Imaginou pretérito o tempo de questionamentos. O que faria de agora em diante é que iria ditar seu futuro e ainda que não pudesse apagar a escrita de sua vida, nesse momento acreditou que morria o refém.

Durante algum tempo seu sorriso era farto, sua respiração fácil, seu passo firme e a visão clara. Abriu mão de todo tipo de razões para abraçar apenas a razão da lógica. Não contava porém que para seus pares sua alforria era inadmissível. Como poderia não estar disponível 30 horas por dia?

Esse conflito fez seus neurônios baterem pino, as juntas pareceram se desarticular e o coração sambar fora de compasso. Teve a paz por curto tempo e levou consigo o refém que nunca conseguiu exorcizar.

Não presto aqui as últimas homenagens, pelo contrário, lhe renderei tributo por todos os dias do resto de minha vida. Como causa mortis diria apenas: um homem bom.

Nesse novo ano judaico que se inicia, deixo cantada uma mensagem gravada pelo coral Kol Haneshama, onde se diz:

Que seja da tua vontade Nosso Deus
E Deus de nossos ancestrais
Que se renove para nós
Um ano bom e doce

Clique aqui para assisti-la.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Chave Mestra


A fórmula que certas pessoas encontram para tentar burlar o destino e segurar um pouco mais entre nós um parente que parte, é distribuir seus pertences mais pessoais entre os membros do clã. Desta maneira, com aquele objeto circulando por aqui, temos a sensação de que o dono também anda por perto.

Meu avô tinha a mania de guardar em uma antiga caixa de madeira, chaves que iam perdendo sua função. Naquele tempo até que não era má ideia, pois sempre tinha uma porta trancada esperando por uma chave. O amor é lindo! Atualmente, com a facilidade da internet, é possível que achemos em um clique não apenas um chaveiro de prontidão, mas como abrir uma porta com sal grosso, óleo de cozinha usado e um palito de dente, que pode eventualmente também já ter sido utilizado.

Eu fui o beneficiado com aquela caixa de chave mestra, sim porque entre as centenas de peças, sempre havia uma chave para uma porta, tipo um sapato para cada pé ou vice versa e eu guardava aquilo como um tesouro. Embora não tenha lembrança da oportunidade em que ela me pode ter sido útil, valeu a pena tê-la mantido sob a guarda por tantos anos, me fez sentir que poderia se quisesse, ter rompido várias barreiras.

Algumas pessoas têm esse poder de romper barreiras. Elas trazem dentro de si uma chave mestra que se expressa pelo seu bom humor, seu sorriso fácil, sua simpatia, seu olhar maternal e um aspecto pretensamente frágil. Mamãe é assim, uma chave mestra.

É claro que mamãe foi junto fazer a matrícula na “minha” faculdade de medicina. Naquela época, jovem e bobo, senti-me um pouco constrangido e acanhado. Soubesse e sentisse o que hoje sinto e sei, teria levado mamãe pelos braços com o maior sorriso no rosto.

Subindo as escadas daquele imponente prédio na Praia Vermelha, logo à direita havia uma porta que dava para uma pequena sala onde ficavam duas moças cumprindo um dever de fundamental importância na vida dos futuros doutores – preencher papéis. O balcão suportava talvez uns 3 ou 4 estudantes se muito. No intuito de organizar os que chegavam, as meninas meio que criaram uma barreira quando uma delas se dirigiu a minha mãe: - “e a senhora?” Futucando a caixa de chaves do fundo do coração, abriu um largo sorriso, meneou a cabeça e lascou docilmente: “-minha filha, viemos fazer nossa matrícula na faculdade”.

Muito mais tarde entendi que havia sido minha primeira lição. Na prática diária da medicina muitas vezes precisamos romper barreiras e abrir portas no fundo d’alma de nossos pacientes, onde ficam guardados os segredos de um bom diagnóstico.

domingo, 22 de julho de 2012

Não tirem o sofá da sala



Para não quebrar a rotina, assistiam ao jornal da TV no já velho sofá da sala. Ficavam fisicamente próximos e naquele começo de noite pouco ou quase nada se falavam.  O que a princípio podia parecer distância, era em verdade uma intimidade e aproximação que dispensava as palavras. Mesmo no silêncio ele sabia quando ela tinha sede e não passava despercebido nela que havia preocupação no coração dele. Era mais que comum um pensar em alguma coisa e o outro verbalizar. O que havia sido criado naquela relação era tão forte e profundo que por vezes suas almas mal se distinguiam, embora nunca tenham perdido sua individualidade o que mais intensa tornava sua ligação.

Foi um daqueles momentos em que nos perdemos em uma elação interminável de ideias quando um pensamento puxa outro, outro e outro e acabamos dez anos luz do início. Assim a imagem da moça do tempo lhe lembrou da previsão de chuva antes da viagem para Paris ano passado, na véspera da final de Roland Garros que o reporta a desistência de Nadal, que não vai jogar por problemas no joelho, assim como a empregada que não foi trabalhar porque o filho foi operado e tem a louça esperando na pia, que vai cair no seu colo porque ela também está em fase de recuperação de cirurgia e precisa ser cuidada como uma rainha porque ele a ama e ... se percebeu acariciando sua mão sendo correspondido com uma dança de dedos entrelaçados ainda em silêncio, como faziam desde sempre.

Ela se chega um pouco mais permitindo mais carícias enquanto deita a cabeça em seu ombro. Seus corações se aceleram e viajam no tempo de volta aos primeiros encontros, o que os torna um pouco mais jovens sem perder a experiência dos anos. Juntos já haviam navegado muito e de repente se viram explorando outra vez os mais recônditos igarapés um do outro e o sofá da sala foi palco da mais linda e pura expressão de amor explícito.

Ainda colados, a respiração ofegante recuperando-se dos excessos, permaneceram assim por alguns minutos quando ela não aguenta e lembra que precisavam de umas mudanças na casa. Ele também não resiste e consente: - faça o que achar necessário, só não tire o sofá da sala.

Ela se aconchega um pouquinho mais em uma anuência silenciosa e com um doce sorriso em seus rostos adormecem agarrados.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Leão, um ente querido


Era um domingo preguiçoso. Sentados em sua sala que abrigava uma singela, porém valiosa pinacoteca, além de várias antiguidades, nosso papo fluía como uma nau desgovernada ao sabor da vontade de Éolo, deus dos ventos. Mudávamos de assunto em um piscar de olhos, nossa mente flutuava nas asas de Ícaro quando de súbito ele me vem com essa:

- escolhe alguma coisa
- Ah papai, para com isso! – Mesmo sabendo que nada é eterno, ainda hoje tenho dificuldade de aceitar a finitude dos meus pais. 

Quando criança nunca passou pela minha cabeça meu universo longe das salas de aula e depois, já adulto, jamais me vi sem trabalhar. Em uma pobre analogia, me é difícil conceber aquela constelação familiar se desfazendo. Essa deveria ser uma instituição divina e intocável!

- Eu quero que cada um dos meus filhos sinta o gostinho do meu sangue quando eu partir.
- Que coisa mais mórbida...
me atalhando...
- faz o que eu estou te pedindo.
- Ok, eu quero o leão.

Segundo a crônica familiar, o pai do papai havia comprado aquela figura de um leão talhada em madeira com cerca de 20 cm de altura em um antiquário como presente de noivado. Na minha infância habituei-me a vê-la na casa dos meus avós, depois na casa dos meus pais e agora com garbo, na estante da minha sala.

Valor material não tem. Ninguém vai querer aquele leão, mas é o gostinho do meu pai. Dizer que aquele gordo seguro em prol dos filhos ou o apartamento não tem significado é muita hipocrisia, por outro lado é a mais pura verdade que não identifica tanto um ser querido como aquela chavinha de fenda para óculos com mais de 40 anos guardada na gaveta, o martelo da Chechênea nunca dantes usado, a caneta tinteiro que já não vê tinta há décadas, um carimbo que acompanha a caneta e outras pequenas coisas como uma antiga figura de leão talhado em madeira.

Essas lembranças ficam entre o bem material e uma matéria do bem, bem ao estilo d’alma, que afinal é o que fica de bom.

domingo, 24 de junho de 2012

Sorri é o cacête


Forças protocolares de um país no hemisfério sul, obrigaram o então presidente, em função de seu posto, a receber um Deputado desafeto político e tido pelo anfitrião como a personificação da antiética. Os holofotes da imprensa ávidos por registrar o inusitado explodiram seus flashes sobre a dupla. Em meio aquela cena, um sisudo general ouve do deputado:
- sorria presidente.

- sorrio se eu quiser, estou em meu gabinete e na minha casa! Aqui faço eu o que eu quero!

Caem as cortinas.

O presidente não era exatamente um retrato de candura. Vindo da cavalaria do exército, não raro se confundia cavalo e cavaleiro. Dizia preferir o cheiro do bicho ao do homem (do ser humano, bem entendido), sugeria a um grupo de crianças o suicídio coletivo por se verem suas famílias obrigadas a viver com um salário mínimo, era avesso a imprensa e reza o cancioneiro popular que debaixo de seu quepe de general cultivava frondosa galhada.

Herdei do meu pai a desconfiança da verdade absoluta. Não sei se cultivou esse traço por ser advogado ou se tornou bacharel por já ter essa característica e por não dispor de provas contundentes do dito delito posso apenas lembrar que não basta à mulher de César ser correta, tem também que parecer correta. Diz ainda aquele mesmo cancioneiro que o que está na boca do povo ou foi ou é ou será. De qualquer forma resta- nos apenas torcer para que o ninho de amor do casal não tenha sido dividido com surfistas marombados.

Nessa terra do imaginário, um ex-presidente recebe e chama de camarada um líder vindo do extremo oriente, reconhecidamente um contumaz desrespeitador dos direitos humanos, lidera um partido que se afundou na lama, se acha acima do bem e do mal, assim aparece sem melindres sorrindo ao lado de figuras como Sarney, Renan e Collor e por último ao lado daquele deputado sobrevivente, ainda uma nefasta figura do lado escuso da política e da ética.

Eu que me esgoelei nas ruas prometendo que a união do povo impediria sua derrota moral, me surpreendo com estranha e saudosa lembrança do ex-general cujas palavras foram registradas na imprensa, mas não como haviam sido cozidas em seus limitados neurônios.

O mínimo que me vem à cabeça para esse palhaço que cultiva a ignorância como um troféu é a expressão do mal falado galhado:

Sorri é o cacête!

domingo, 10 de junho de 2012

Sobe e Desce

Iankel era um predestinado. Nascera em uma família tradicional com tudo muito em seu devido lugar, no tempo certo e da forma correta. Da escola trazia sempre boas notas, era querido pelos coleguinhas e o preferido das professoras. Na faculdade era cercado de amigos. Para descrevê-lo de forma sucinta diria que era um líder entre os homens e o tipo querido das mulheres.

Seus pais e os pais destes eram pessoas destacadas na comunidade, não faltavam ao culto do Shabat e além de cumprir com o que acreditavam ser sua obrigação sob a ótica de suas convicções religiosas, contribuíam generosamente para causas sociais.

Cresceu nesse clima de retidão e dogmas, ambientado nas histórias da bíblia e exemplos da Torah, por onde viajava sua imaginação e delírios em mil e uma noites. Era assíduo nas organizações juvenis onde se tornou um expoente. Não foi surpresa, portanto quando anunciou seu desejo de se tornar um rabino, pelo contrário, era uma expectativa da família e foi comemorada como uma vitória de eleição presidencial.

A vaidade é talvez o mais terrível dos pecados capitais. Junte-se a isso a presunção e o resultado é o desaparecimento súbito do chão sob seus pés. Lembro-me de um campeonato de lutas marciais mistas, ainda nos primórdios dessa modalidade, onde o grande campeão e disparado favorito, entrou no ringue contra um ilustre desconhecido. De guarda baixa e nariz empinado acreditava piamente que a sua figura seria o suficiente para espantar a valentia de qualquer um. Foi atingido já nos primeiros segundos por uma martelada no queixo e só soube do ocorrido muitas horas depois, já no leito do hospital, devidamente atendido e medicado.

Outra forma de garantir a derrota é subestimar o inimigo. A história nos presenteia com inúmeros exemplos. Geralmente as vítimas esquecem de pequenos detalhes, justo do tipo que por milênios vem moldando a história da humanidade. Se isso, se aquilo!

E lá ia a vida dando linha a Iankel, quando chega a hora de assumir a liderança em uma sinagoga. No primeiro dia subiu ao púlpito tal qual o campeão, muito confiante, nariz para cima, sem qualquer sinal de humildade que a generosidade da vida se furtou em plantar naquele fértil terreno.

A preleção foi pontuada por uma inesperada gagueira, se perdeu entre o início o fim e o meio, sua lógica foi míope e o que era para ser um triunfo mostrou-se o caos.

Desceu abatido e cabisbaixo, uma figura distante daquela que se via habitualmente e foi direto buscar explicação na sabedoria do velho rabino cuja experiência de vida estava disfarçada sob sua longa barba, marcada em sua pele e em sua coluna curvada.

Dos labirintos das mais diferentes culturas, mosaica, hindu, muçulmana e demais, o velho trouxe à tona com uma espantosa simplicidade um misto de cristalina sabedoria e profícua experiência:

- Se você tivesse subido como desceu, teria descido como subiu.

Enquanto isso nos céus...bem isso é uma outra história.


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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pecado Capital


Família é assim mesmo, tem sempre uma fofoca rolando, algum desentendimento em pauta e um ranço básico entre as diversas facções, mas em datas festivas estão todos reunidos em torno da mesma mesa. Exceções não raras marcaram a história do homem pela sua virulência e apontam para uma característica a ser corrigida pelo grande arquiteto, quem sabe na próxima fornada. O importante é o espírito de fraternidade. Da capacidade de cada qual em manter a mão estendida para quem precisa no momento em que se faz necessário.

Mas nem sempre assim caminhou a humanidade. Já em Gênesis quando a Consciência onipresente e onisciente questiona Caim “...- e aí Caim? Cadê seu irmão?” À época as relações eram mais informais, porém nem tanto ao mar nem tanto a terra e um mínimo de cuidado seria bastante razoável. A resposta no entanto traduz o descuido, a origem do crime, o nascedouro da barbárie, a fonte onde bebem o egoísmo e o descaso com que muitos tratam seus iguais. “Sou eu por acaso a ama-seca do meu irmão?” Sim, deveríamos ser cada qual um cuidador do nosso irmão, ainda que tenha ele optado por um caminho diverso do nosso, mesmo que a letra de sua música não combine com a melodia da nossa ou que possamos parecer a antítese um do outro.

Não acho que o episódio da maçã tenha levado a algum tipo de pecado. Ora venhamos, um jovem casal em uma praia de nudismo, sol e sombra, água de côco à mão, nada de contas e frutas a dar com pau...foi isso, mais previsível que American Idol e filme de sessão das duas.

O pecado capital é o conceito de “ao nosso reino tudo e ao vosso coisa nenhuma”. Daí, todo malfeito é aceitável e uma conseqüência lógica, facilmente previsível. É um pecado original, ou seja, o que dá início a todos os outros.

O silêncio do Cainchoeira, o encapsulamento protetor de quem se pretendia ser uma reserva moral, o sorriso maroto do advogado do mal, a postura hipócrita dos representantes desse povo esquecido, o conchavo que faz da justiça mais um palhaço desse circo de horrores é o que se constitui no verdadeiro pecado original. O abate físico e violento de seu adversário é apenas mais um ato previsível desse teatro de 5ª categoria.

Estacionar “rapidinho” em vaga de deficiente é não dar a mínima para seu irmão, uma veemente expressão de pecado original. Sempre achei que precisamos ser rígidos nos princípios e maleáveis nas decisões, o que não significa ser indeciso ou viver uma vida sem princípios.

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terça-feira, 17 de abril de 2012

O Mal de Hama

Já fiz todo tipo de conta e não me vem qualquer resultado que justifique o ódio alimentado por alguns muçulmanos pelos judeus. Abdulah sempre que me encontrava, beijava meu rosto e me saudava com “shalom” (paz). Eu retribuía o fraternal carinho e respondia – “Aleikum al salam” (aos que chegam, que venham em paz).

Eu já era graduado quando ele dava os primeiros passos na suave arte do Jiu Jitsu. Na última vez que veio ao Brasil treinamos juntos. Com ele já formado escapei de levar uma surra de alguém 20 anos mais novo por que apenas apontava os golpes e a cada instante perguntava – c’est bien? Afinal, historicamente somos filhos do mesmo pai.

Eu nem tenho como culpar o velho, olhando todos os dias a bela Agar, que o encantava levando água nos cântaros. Seus preenchimentos, na medida certa apenas para afirmar que ali a vida existia, seu sorriso jovial, que não era um convite, mas uma intimação e a medida de seus passos, matematicamente exatos para o balanço meio contido de seus quadris, que dava ao seu caminhar uma espécie de dança do ventre, transtornava o homem de dentro para fora.

Quase dois mil anos depois, nascia em uma região próxima, no mesmo médio oriente, a simpática Fath’ma, filha de um comerciante que após uma vida difícil, se fez líder político e espiritual. Perdera o pai antes mesmo de nascer. Durante sua infância ficaria ainda sem a proteção de sua mãe e de seu avô, tendo sido abrigado então por um tio, mentor e amigo. Ali viria a se casar com Fath’ma e se tornaria mais um problema no pós vida do sogro.

Mohamad, pai de Fath’ma e fundador do islamismo, não só gostava dos judeus e de seus dissidentes, os cristãos, como foi garimpar seus princípios religiosos e buscar neles apoio às suas aspirações políticas. Mesmo frustrado nessa investida, sempre teve para com esses grupos um tratamento diferenciado. Puniu com muito mais energia e rigor, parte de seu próprio povo que não aderiu à nova ordem. É considerado por seus seguidores o último profeta, depois do próprio Abrahão, seu filho e neto, do rei Davi e de Jesus. Foi um iconoclasta e como os judeus, afirmava que “Adonai echad” – Deus é único.

Sua morte ensejou um cisma entre aqueles que defendiam a permanência da liderança com os mais velhos, segundo a “suna” - tradição - e os que a esses se opunham, o grupo do “xia” – camarada - Ali. Sunitas e Xiitas vivem às turras, até os dias de hoje e são os maiores algozes de si mesmo. Depois dos ingleses, russos e americanos, vieram os talibãs ao Afeganistão, provocando ao seu povo, mais sofrimento e dor do que os estrangeiros que por ali passaram.

No início de fevereiro de 82, a cidade Síria de Hama viveu uma das mais expressivas manifestações da crueldade humana. Um destacamento do exército entrara na cidade a procura do líder Abu Bakr, um fundamentalista sunita, que teria usado os autofalantes das mesquitas, antes com a função de convocação às orações, para conclamar o povo a um levante. Começava um capítulo de ódio raramente testemunhado na história, por ter ocorrido entre irmãos. Invadiram as casas de simpatizantes do governo, promovendo uma “purificação” de fazer corar Gengis Kahan.

Não tardou a retaliação pelos donos do poder. Com requinte de crueldade perpetraram um massacre que mal encontra paralelo com o setembro negro patrocinado pelo hachemita Hussein da Jordânia em 1970. Não satisfeitos em bombardear durante 3 semanas, dos céus e das montanhas, as casas da velha cidade, com seus cerca de 40.000  civis, passaram por sobre os escombros moto niveladoras, deixando a mostra partes do que havia sido uma comunidade. Pedaços de móveis, utensílios e porque não, restos de corpos que apodreciam ao léu. Foram responsáveis o pai e o tio do assassino de plantão e agora ex-ditador da Síria e considerado o maior ataque de um governo contra seu próprio povo.

Diziam que era preciso mostrar do que eram capazes contra seus inimigos. INIMIGOS? Eram seus irmãos. Professavam a mesma crença, falavam o mesmo idioma e dividiam até mesmo o padrão alimentar. Naquela cidade e naquele tempo mostrou-se o lado negro da natureza humana. Quando o bem não se faz presente, aflora o mal em suas diversas facetas.

Quando corruptos cometem genocídio ao colocarem água nas ampolas de remédios contra o câncer, quando a falta de ambulâncias traduz o desvio de verba, quando se assiste a todo tipo de artifício e falcatruas em benefício de algumas poucas pessoas, à custa do bem de um povo a quem deveriam representar e proteger, se está cultivando uma semente do mal que a seu devido tempo irá brotar como o Mal de Hama, que se identifica como uma completa ausência de humanidade.