domingo, 23 de outubro de 2016
Café da Lioca
Ainda que eu acordasse nas primeiras horas de todas as manhas durante varias eternidades para preparar o café da minha mulher, me faltariam eternidades para demonstrar toda minha gratidão. Te amo Lioca!
ESSE NOME TEM PODER
Há cerca de 30 dias, após uma noite agitada por um intenso mal estar, decidi aceitar a incontestável verdade que teimamos em negar; - o tempo não para! Visto isso e apenas a título de check up, realizei na manhã seguinte, uma série de exames, certo obviamente, de um resultado favorável. Como um dos índices suscitou dúvida, segui no que chamamos de estratificação da pesquisa, ou seja, partir para outros níveis de investigação, que culminou em uma cirurgia. Tudo muito rápido, vejo-me agora, de volta ao conforto do lar, em franca recuperação, recordando os momentos em que a dor foi uma companheira freqüente e Lia uma parceira constante, que dividiu comigo, as aflições, angústias e as lágrimas de alegria. Eu tive a constatação de uma antiga revelação, que como um raio de luz, clareia o caminho. Vivenciei a benção que é dada a poucos de nós. Descobri como o pronunciamento de um simples nome, pode nos trazer tamanha paz e alívio da dor. Como um mantra, repetia nas horas difíceis, o nome, e como milagre, acalmava minha alma e afastava minha dor. Para que não paire dúvidas, confesso o que ininterruptamente repetia: Lia, Lia, Lia, Lia.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Na Pedra e na Areia
Conta-se que em uma ocasião já perdida no tempo, duas
caravanas encontraram-se a beira de um rio, cada qual em seu destino para
negociar suas mercadorias. Cheios de sonhos e felizes, sentaram-se em torno do
fogo, beberam moderadamente, riram e tornaram-se bons e velhos amigos. Antes
de se recolherem, um deles chamou seu serviçal e lhe ordenou que gravasse em
uma grande pedra que naquela data, Omar e Samir tiveram a felicidade de se
encontrar e selar uma fraternal amizade e que isso era razão de enorme
regozijo.
Retornando de seus negócios, encontraram-se de novo junto ao
mesmo rio e também agora riam, contavam histórias e beberam demais da conta até
que Samir já inebriado pelo álcool e em meio a festa, se desentende com Omar e
lhe esbofeteia a face.
Imediatamente esse chama o mesmo serviçal e lhe ordena escrever
na areia que naquela data, por um banal motivo, tocados pelo excesso de vinho,
seu fraternal amigo o agredira. Sem entender, Samir lhe questiona o porque de
agora registrar na areia. “- que nossa amizade perdure o tempo que durar a
gravação na pedra e que nosso momento de tristeza dure o tanto tempo que essas
palavras permanecerem na areia.”
Sob uma ótica perversa e egoísta, não raro antigos amigos são
alvos de críticas por não corresponderem mais ao que já foram um dia. Se
valoriza mais a nossa saudade do que a felicidade do outro. A amizade
verdadeira é eterna. Há poucos anos assisti a uma final de tênis entre duas
grandes amigas e quando a campeã foi questionada em como iria gastar o dinheiro
do prêmio, respondeu que ainda iria decidir junto com sua “irmã”.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Loucos caminhos
Se são loucos seus caminhos
Que direi dos caminhos meus
me perdendo em seus carinhos
me fingindo passar por deus
Que direi dos caminhos meus
me perdendo em seus carinhos
me fingindo passar por deus
LIFE IS A TALE
Life is a tale
Told by an idiot
Full of sound and fury
Signifying nothing
O que assistimos hoje em termos de violência, expressa em
cada uma de suas diversas facetas, ultrapassa de muito o aceitável para qualquer
um que ainda guarde um pingo de humanidade.
Vejo que um dos argumentos do “Malvado Favorito” do Beto
Jefferson, em seu depoimento na câmara em sua defesa, é de que o mesmo
acontecerá com os outros parlamentares, ou seja, também serão punidos por seus
mal feitos. A conclusão lógica desse raciocínio torto é deixar o crime impune
sob a ameaça de termos que castigar todos os males.
O que mais tem são explicações sócio psicológicas para a
onda de agressões com armas de fogo de modo indiscriminado, matando-se ao bel-prazer
por tiros diretos ou balas perdidas.
A meu ver a cabeça da serpente é cultural. A famigerada Lei
de Gerson, onde tudo vale desde de que se leve vantagem, extrapolou os campos
de futebol e como um vírus mortal tomou a alma e o comportamento desse povo que
perdeu a passividade para se tornar leniente com o mau.
A vida perdeu o sentido. No início dos anos 1600, Shakespeare
escreveu uma peça sobre o assassinato de um rei e suas consequências - Macbeth.
Aqui o dramaturgo expressa em poucos versos a essência de seu pensamento,
talvez mais profundo que o “ser ou não
ser” e tão atual nesses tempos que mais parecem aqueles das Capitanias
Hereditárias, em que vigorava a lei de uma selva de bestas.
Esses versos nunca foram tão atuais.
Life is a tale
Told by an idiot
Full of sound and fury
Signifying
nothingterça-feira, 17 de maio de 2016
Al Capone e as Pedaladas
Cabe agora ao mesmo povo que se colocou nas ruas, travar novas batalhas, identificar antigos inimigos, reforçar suas baterias e como dizia um velho amigo super herói - "para o alto e avante"!
Espero que possamos identificar o juiz Sérgio Moro como o chefe dos intocáveis, que sejam samurais, que lutem conosco pela honra e com ela, pela sobrevivência dessa desorganização social chamada Brasil.
Não é hora de esmorecer. Não chegou o tempo de relaxar. Ainda não podemos cantar vitória, mas Roma era o mundo e caiu, o império de Gengis Kahn não durou 3 séculos, a Macedônia passou nas mãos de vários impérios e acabou como havia previsto Tito. 1975, em pleno domínio do militarismo ninguém imaginava que 6 anos depois estariam apeados do poder. Os muçulmanos foram, voltaram e tentam ir de novo da maneira errada, as dinastias egípcias duraram 3000 anos nas mãos de 9 famílias, a idade média viveu uma longa noite de 1000 anos. Por aí caminha a história da humanidade.
Esse caos no pais tropical há de ser vencido. O problema é que a história caminha a passos largos de décadas e/ou séculos. Talvez minha geração não veja o fruto dessa luta, mas nossos descendentes saberão que não nos calamos e que preparamos o solo para um generoso plantio.
Leia os artigos médicos do Espaço Médico Península clicando aqui
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Não foi por mal!
Vez por outra assistimos pasmos a fenômenos que a natureza
nos apresenta como quem quer mostrar o quanto somos frageis e ignaros sobre as
nuances de seus caprichos. Nos invade com as águas dos oceanos, leva milhares
de roedores a se lançarem no mar ou joga baleias nas areias para encontrarem
seu fim. Diria um incauto que são misteriosos os caminhos do senhor! Bota
mistério nisso. Com tanto poder precisava destruir daquele jeito as cidades de
Sodoma e Gomorra? Aquela formiguinha que passou sua existência protegendo a
rainha, aquele potrinho que acabara de nascer, os porquinhos que inocentemente
chafurdavam na lama, foram todos vítimas inocentes de um ataque de fúria
sulfúrica de seu criador. Não poderia enfartar os infiéis? Tornar diabéticos os
glutões e servi-los com gangrenas? Tenho que concordar, são realmente
misteriosos seus caminhos.
Tudo porque a humanidade da época inaugurou uma maneira
tropical de ser. Os gregos rechearam os textos sobre seus deuses com os mais
Froideanos e Nelson Rodrigueanos casos de amor. Minos e sua família eram um
poço de vergonha. Gilgamesh, o rei semi deus sumeriano de Uruk (atual Iraque),
citado em poema de quase 5.000 anos tem uma história conturbada com a deusa
Ishtar envolvendo inclusive a morte de uma de suas crias, simbolizada por um
touro (ish = esposa em hebraico), uma relação no mínimo estranha com seu
inseparável (até a morte) amigo Enkidu e acaba buscando apoio em Utnapishtim
(ou Noé ?) herói sobrevivente de um dilúvio que tem a planta da imortalidade
roubada por uma serpente.
Solta a imaginação irmão!
O próprio rei Davi, tremendo mau caráter e algoz de Golias inaugurou
o jeito máfia de ser, fazendo acordo com os inimigos de seu amigo, que não sem um
bom motivo, como mostrou a história, sofria de síndrome persecutória. Esse rei,
ungido com a benção do divino enviava seus melhores soldados para a frente de
batalha a fim de dar apoio e calor humano às suas mulheres, hábito adotado por
Napoleão anos mais tarde. Pois é, essas coisas sempre aconteceram e mereceriam
do Pai um entendimento mais divino da alma que Ele colocou em cada humano de sua
obra. Mas foi tudo feito sempre com as melhores da intenções.
Também não foi por mal que aviões da força aérea dos EUA
bombardearam uma caravana de civis fugindo dos horrores da guerra da Bósnia
Herzegovina. A intenção era de proteger. Seguindo a ladainha do “não
foi por mal” é que se desvia verba de saúde e educação, aprisionando
milhares dos nossos na teia do anafalbetismo e entregando outros tantos nas
mãos de Tânatus.
Com a intenção de voltar rapidinho para seus afazeres,
motoristas estacionam nas vagas de idosos e deficientes. Claro que se danem
velhinhos e portadores de deficiência ainda que só por um minutinho, porque não
foi por mal.
A falta de um olhar cuidadoso para nosso vizinho é uma
lacuna presente na alma de homens de bem.
Muitas vezes fazemos coisas em nosso favor, sem se aperceber
que isso terá um custo para outros e é esse o cuidado que temos que ter nas
mais inocentes atitudes. Podemos não tê-las feito por mal, mas se as fizemos
foi por certo pela falta do bem.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Dos Deuses e da Sorte
O que os deuses mais gostam é ver os
homens fazendo planos. Reza o folclore mitológico que muitas das vezes que
ouvimos trovões, na verdade são eles rindo de nós.
Não compro muito essa história de
povo escolhido. Diferentemente disso acho que foi esse povo que escolheu ser o
escolhido. Não posso crer em um deus que demonstre sua preferência por um dos
filhos, que faça um time perder para o meu ganhar e que sendo de tal forma
faccioso, possa ser eleito como parâmetro de justiça. Em momentos de destempero
destrói cidades com tudo que nela existe ou inunda o mundo. Se fomos criados à
sua semelhança, até que já o entendo melhor, porque por vezes os filhos nos
tiram do sério.
O que Tique, a face grega de Fortuna,
deusa romana da sorte mais detesta é encontrar alguém dormindo. Vira as costas
vai embora e não volta nunca mais. Ela tem horror a preguiça e a indolência.
Imaginem então essa figura em uma repartição pública brasileira!
É vero que embora estivesse quase nas
mãos de Morpheu, vivia ávido e atento, sedento por uma oportunidade e jamais
deixaria escapar uma como a que Tique colocou em minhas mãos.
Não escolhi Lia. Quando encontrei
minha Valquiria fui tomado por tamanha e arrebatadora paixão que não nos sobrou
opção. Aceitamos então termos sido escolhidos um para o outro, desdenhamos os
sorrisos sarcásticos dos céus e fizemos mesura para Tique.
Nunca foi uma guerra fácil, um
passeio no parque, tivemos que fazer desde sempre o melhor possível e estarmos
sempre alerta. Já disse antes que o torno mecânico que Deus usou na confecção
de Lia é de ouro e platina, foi usado apenas uma vez e está exposto em um
pedestal lá no céu.
Esteve sempre à frente do tempo,
criando, organizando tudo e me empurrando para cima. Agora que todo circo foi
montado, que o paciente parece querer sair da UTI, Lia precisa de mim assim
como eu dependo dela.
Isso toma do começo ao fim do meu dia
e “muita mais faria se não fosse para tão grande amor tão curto o dia” (Daprés
Camões - modificado).
Frequentemente surpreendo-me
cantarolando as canções que me acostumei a entoar como hinos. Entre meus
desejos está a superação dessa batalha insana pela vida e a volta ao meu lugar
no coral.
Escrevo à minha família Kol
Haneschamá para ratificar que tenho vocês como meus irmãos e que no tempo em
que estivermos rindo por último e ofertando presentes à Tique estarei também
cantando com a família outra vez.
Um baita shaná tová para todos porquê
nós merecemos, lutamos por isso e no fim vamos rir por último vendo nosso time
ganhar.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Comprando Gado
Tendo surgido a
oportunidade aceitei a oferta do destino e decidi investir em gado. A natureza
se encarregava de aumentar a quantidade de carne e o governo era responsável
por aumentar o preço. Além de lucrativo era divertido e saudável, no
meio da semana ir para a fazenda, muitas vezes ainda de madrugada, tomar café
com meu fraternal amigo e sair para comprar algumas cabeças nas fazendas
próximas, isto é, vizinhas cerca de algumas horas de estrada. Foi mais uma
oportunidade de ver e aprender coisas novas.
De certa feita
ao chegarmos em uma dessas fazendas ao sul de Minas, o dono das vaquinhas e meu
amigo começaram com uma conversa fiada que parecia não ter fim; sentido então
nem pensar;
-
... e Neuzinha, casou ?
-
tá lá né
-
é fogo uai!
-
com esse governo também ...
-
e o tempo?! Nada ajuda sô!
-
...e essas vaquinhas felizes, pastando...
-
...
Isso
foi indo foi indo e na minha cabeça nada batia com nada naquele papo furado,
até que em dado instante já beirando o desespero e sem paciência cutuquei meu
amigo e perguntei baixinho:
-
Não vamos comprar o gado?!
-
Estamos comprando! – sussurrou de volta.
De
fato, após depreciar os pobres quadrúpedes tendo em contrapartida rasgados
elogios do proprietário, depois de viajar na maionese por quase duas horas, divagar
sobre a natureza e vagar por terrenos oníricos que mais pareciam um pesadelo,
saímos de lá com 52 vaquinhas, todas prenhas. Um grande negócio para quem nem
estava negociando segundo meus pobres critérios.
Deixando
de lado o aspecto cômico e folclórico, chama a atenção a dificuldade que por
vezes todos temos de fazer uma leitura correta daquilo que estão nos dizendo em
uma linguagem própria.
Vivemos
hoje na terrinha um movimento parente da primavera árabe que tanto lá como cá sacudiu
representantes e representados e ainda assim, nesse paraíso de Cabral o que
parece é que o gigante se virou para o lado e voltou a dormir. Dorme o gato, os ratos
fazem a festa, mas a mensagem foi clara; a Bastilha está balançando!
Essa
surdez seletiva está fortemente presente nas relações de massas assim como nas
pessoais. O que mais vemos nesses tempos modernos é a incapacidade de se fazer
uma leitura correta do que está sendo dito em alto e bom tom em um linguajar original,
através de gestos, tristeza e indignação.
O
que verdadeiramente surpreende é o espanto que estampa o rosto dos que se
recusam a crer que Bastilha cai, que Roma era o mundo e caiu, que três mil anos
divididos em apenas 17 famílias dinásticas acabou na Praça Tahir e que o povo,
assim como cada um de nós, de uma forma ou de outra acaba por se fazer ouvir.
É
bom ter sempre em mente que embora a conversa pudesse parecer tola e perdida, estávamos
de fato comprando gado.
domingo, 7 de abril de 2013
Um Anjo da Guarda e um Caso Médico
Aquela sim poderia ser definida
como uma relação “unha e carne”. Se pudessem um enfiaria a unha na carne do
outro. Desde que se viram pela primeira vez foi ódio à primeira vista sem
qualquer explicação sob a ótica da lógica e do bom senso, como acontece sempre
quando se trata de sentimento.
Ela trazia na carga genética a
memória de algum traço europeu exteriorizado naqueles olhos verdes sob uma pele
morena, um nariz afilado, dentes perfeitos e gestos delicados, enquanto ele era
a personificação da simpatia e querido por todos. Não era nenhum Adonis mas
nunca se afastara dos esportes e quando se cruzavam nos corredores do hospital
onde ambos trabalhavam o ar se enchia de uma carga elétrica pronta para
explosão. Alguns colegas afirmavam que mais de uma vez ouviram ruídos estranhos
nestas ocasiões. Grunhidos talvez.
Articulações celestiais o
colocaram em um leito do CTI em estado muito grave. Por mais de uma vez evoluiu
com edema agudo do pulmão, seus rins pararam de funcionar, sua musculatura não
respondia aos comandos e seus esfíncteres ignoraram seus deveres e pudores,
permitindo expor seus dejetos mais de 30 vezes ao dia.
Quem mais, com paciência
angelical, doces palavras de apoio e um olhar que ele jamais pensara poder enxergar
nela, estava ali ao lado fazendo seu asseio tantas vezes quanto necessário
fosse.
Exatamente aquele conjunto
genético híbrido!
Quando de volta às suas
atividades, ele a procurou e vaticinou: -“… o que você quiser ou precisar de
mim eu faço questão de saber”.
Várias vezes foram vistos juntos
no refeitório do hospital conversando ou gargalhando e por vezes sérios apenas trocando
figurinhas. Não se passava um dia em que ele não procurasse saber se haveria
algo que pudesse ser feito não para agradar aquela santa, mas para aplacar a culpa
que frequentemente lhe queimava a alma por ter pensado mal.
Para o desapontamento dos
românticos de plantão, não quis o destino que se consumasse na carne o que
havia começado nas garras de um ódio sem sentido. Cada um seguiu seu caminho e
nunca mais se viram. Os traços daquele rosto estão gravados em minha memória
como se nunca fossem envelhecer. Estou convicto de que cada qual guarda com um
carinho especial a lembrança do que poderia ter sido uma grande amizade e respeito
ao profissionalismo ou apenas mais um caso médico.
Acho que deveríamos nos dar mais
chances para enxergar um amigo no nosso vizinho, porque quem sabe pode ser nosso
anjo da guarda.
domingo, 16 de setembro de 2012
O Refém - Um Homem Bom
De repente, depois de anos de cruel
exercício olhando sempre para fora, surpreendeu-se mais centrado nele mesmo do que
no resto do universo. Nada como um susto para dar um novo norte à sua
existência. Uma espada da Dámocles pairando sobre a cabeça, a percepção da
finitude e de fragilidade que leva a um misto de penoso desalento e revolta. Acho
honestamente que lhe proporcionou um crescimento mais produtivo que alguns anos
de terapia. A vida é esse corredor polonês. O que conta no final não são as
bordoadas que levamos no caminho, mas os passos que conseguimos dar adiante.
Embora preso a uma rotina de vida em
que era comum sacrificar seus interesses em prol de outrem, agonizava dentro
dele o refém que embalara por quase meio século. Já verbalizava a palavra “não”
com uma estranha satisfação de vitória. Estava gostando! A compreensão de que o
amor incondicional é na verdade um suicídio espiritual o colocou no caminho da
troca desse prazer, cujo feedback positivo o alimentava com a vida - literalmente
com vida.
Não tinha mais vários problemas, mas
apenas percalços. Como não existe essa história de virar a página e fazer uma
nova vida, ainda trazia no lombo a carga do passado. O que acontece hoje é o
somatório do que fizemos até então. Imaginou pretérito o tempo de
questionamentos. O que faria de agora em diante é que iria ditar seu futuro e
ainda que não pudesse apagar a escrita de sua vida, nesse momento acreditou que
morria o refém.
Durante algum tempo seu sorriso era farto,
sua respiração fácil, seu passo firme e a visão clara. Abriu mão de todo tipo
de razões para abraçar apenas a razão da lógica. Não contava porém que para seus
pares sua alforria era inadmissível. Como poderia não estar disponível 30 horas
por dia?
Esse conflito fez seus neurônios baterem
pino, as juntas pareceram se desarticular e o coração sambar fora de compasso.
Teve a paz por curto tempo e levou consigo o refém que nunca conseguiu
exorcizar.
Não presto aqui as últimas
homenagens, pelo contrário, lhe renderei tributo por todos os dias do resto de
minha vida. Como causa mortis diria apenas: um homem bom.
Nesse novo ano judaico que se inicia,
deixo cantada uma mensagem gravada pelo coral Kol Haneshama, onde se diz:
Que seja da tua vontade Nosso Deus
E Deus de nossos ancestrais
Que se renove para nós
Um ano bom e doce
Clique aqui para assisti-la.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
A Chave Mestra
A fórmula
que certas pessoas encontram para tentar burlar o destino e segurar um pouco
mais entre nós um parente que parte, é distribuir seus pertences mais pessoais
entre os membros do clã. Desta maneira, com aquele objeto circulando por aqui, temos
a sensação de que o dono também anda por perto.
Meu
avô tinha a mania de guardar em uma antiga caixa de madeira, chaves que iam
perdendo sua função. Naquele tempo até que não era má ideia, pois sempre tinha
uma porta trancada esperando por uma chave. O amor é lindo! Atualmente, com a
facilidade da internet, é possível que achemos em um clique não apenas um
chaveiro de prontidão, mas como abrir uma porta com sal grosso, óleo de cozinha
usado e um palito de dente, que pode eventualmente também já ter sido
utilizado.
Eu
fui o beneficiado com aquela caixa de chave mestra, sim porque entre as
centenas de peças, sempre havia uma chave para uma porta, tipo um sapato para
cada pé ou vice versa e eu guardava aquilo como um tesouro. Embora não tenha
lembrança da oportunidade em que ela me pode ter sido útil, valeu a pena tê-la
mantido sob a guarda por tantos anos, me fez sentir que poderia se quisesse,
ter rompido várias barreiras.
Algumas
pessoas têm esse poder de romper barreiras. Elas trazem dentro de si uma chave
mestra que se expressa pelo seu bom humor, seu sorriso fácil, sua simpatia, seu
olhar maternal e um aspecto pretensamente frágil. Mamãe é assim, uma chave
mestra.
É
claro que mamãe foi junto fazer a matrícula na “minha” faculdade de
medicina. Naquela época, jovem e bobo, senti-me um pouco constrangido e acanhado.
Soubesse e sentisse o que hoje sinto e sei, teria levado mamãe pelos braços com
o maior sorriso no rosto.
Subindo
as escadas daquele imponente prédio na Praia Vermelha, logo à direita havia uma
porta que dava para uma pequena sala onde ficavam duas moças cumprindo um dever
de fundamental importância na vida dos futuros doutores – preencher papéis. O
balcão suportava talvez uns 3 ou 4 estudantes se muito. No intuito de organizar
os que chegavam, as meninas meio que criaram uma barreira quando uma delas se
dirigiu a minha mãe: - “e a senhora?” Futucando a caixa de chaves do fundo do
coração, abriu um largo sorriso, meneou a cabeça e lascou docilmente: “-minha
filha, viemos fazer nossa matrícula na faculdade”.
Muito
mais tarde entendi que havia sido minha primeira lição. Na prática diária da
medicina muitas vezes precisamos romper barreiras e abrir portas no fundo d’alma
de nossos pacientes, onde ficam guardados os segredos de um bom diagnóstico.
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