quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Na Terra de Nuncas

Todo malfeito é justificado por seu agente com lógicas transversas ao bom senso e aos princípios do convívio social. Quando surpreendidos pela lei se veem cabisbaixos e arrependidos, certamente por terem tido frustradas suas malévolas intenções. Os pequenos delitos quando ignorados servem de sementes do mal para um dano mais abrangente no futuro e são um estímulo às grandes falcatruas.

Presenciamos nesses dias em São Paulo, tristes cenas de selvageria no que se esperava ser a coroação de uma grande festa popular, fonte de lucro de empresários do crime, que se mostrou nesse episódio, um tanto desorganizado.

O fato marcante em todas essas crônicas policiais é que indivíduos de posses ficam invariavelmente impunes, enquanto o ladrão de galinha vai engrossar as fileiras do crime em sua escola maior que são as casas de detenção. Nunca o mal foi tão gratificante e compensador. Nunca se plantou nessa terra, de forma tão orquestrada e acintosa, a semente do mal.

Dirijo um centro médico na Barra da Tijuca, situado em uma rua que apesar de ter alvará e constar no Guia da Guarda Municipal, curiosamente é desconhecida da prefeitura. Inúmeras e infrutíferas foram as denúncias ao número divulgado para atendimento ao cidadão.

Ônibus de empresa privada que atendem aos condomínios, se apossaram da via pública, colocaram cones onde melhor lhes convinha, atrapalharam o ir e vir de funcionários e usuários e se mostram zangados e ameaçadores quando chamados a atenção.

Por último destruíram placas de proibido estacionar, indignados por estarem elas ali. Então felizes, lépidos e fagueiros interferem com o fluxo do trânsito, certos de que nunca lhes será imposta qualquer punição.

O próximo passo, a exemplo do que ocorre com taxistas e milícias, tomados pelo torpor do poder, passarão a legislar sobre o que pode e deve ser feito nas imediações, quem serão os amigos, participantes é lógico de uma caixinha, que poderão usufruir da ilegalidade e se elegerão executores do castigo aos “infratores” seguidores da lei e da ordem pública.

Conhecendo a linguagem dessa Terra de Nuncas, não posso jamais afastar a possibilidade de parcerias com funcionários da instituição pública, gerando conforto e lucro para alguns em detrimento do custo que isso possa acarretar aos cidadãos de bem.

Nessas fantasias de nossa infância, temos um herói que se recusava a crescer e um fora da lei que se negava a exorcizar seus fantasmas. Não foi por outro motivo que ficaram presos na Terra do Nunca.

Se nós, na vida real não optarmos pela dor do crescimento e encararmos nossos problemas, estaremos fadados, como os personagens do conto a viver para sempre nessa terra de nuncas.


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

LECH LECHÁ!


Não foram poucas as vezes que me senti amarrado, trancado, sem espaço, parecia-me impossível evoluir e faltava-me vontade de lutar. A vida parecia ter dado um nó. Isso aconteceu nos treinos de Jiu Jitsu, o mesmo ocorreu na minha vida profissional e não foi diferente nas minhas relações pessoais.

Existem pessoas que nessas ocasiões provocam a vida e desafiam o destino. Meu pai sugeria sempre essa postura arrogante diante dos problemas com os quais a vida nos presenteia. Aprendi o ensinamento e acreditei ser um entre poucos, mas eis que os céus colocaram em meu caminho uma menina que absorveu essa aula mais do que eu. Quando penso que estou sendo audacioso, olho para meu lado e vejo minha Lia alguns passos adiante.

Abraão, que a história fez patriarca, era um beduíno dado a ouvir vozes. Não as de Bilac, que por amar ouvia estrelas, mas vozes com razões as mais diversas. Algumas até que eram saudáveis enquanto outras inconfessáveis. Dando ouvido a esses conselhos vindos do etéreo, uma vez quase mata o próprio filho, no caso salvo por uma visão, manifestação avançada de sua esquizofrenia acredito eu. Em outra, sempre aconselhado por sons que ninguém mais ouvia, assumiu a paternidade de um rebento, fruto de uma relação extraconjugal com uma doméstica que trabalhava pela comida (alimento, bem entendido) e que dá o que falar até os dias de hoje. Coisas de família.

Até que entendo um pouco, pois assim como eu, Abraão passou uma fase em que fechava os olhos e não repousava, quando os abria, cansado, já não enxergava o que via. O ar entrava e saia de seus pulmões, mas não respirava. Nem sua própria voz mais ouvia e o que dizia ninguém escutava. O sangue corria leniente em suas veias, a secura das lágrimas embotava sua mente e nem mesmo a luz do sol lhe deixava contente.

Estávamos mortos em vida!

Foi nesse momento de nossa existência que, cada um no seu tempo, tivemos ambos a mesma conduta, eu segui o que meu pai sugeria e ele o que disse a voz: “- Lech lechá” (leia-se lerr lerrá), uma expressão do dialeto da época, antigo hebraico, que traduzida seria algo como “- VAI NESSA”. Não olha para trás, larga seu conforto, seu jardim, abandona sua comodidade e seus pertences, a terra onde nasceu e foi criado, tudo que conheces e com que tens intimidade e – LECH LECHÁ!

Ele viria a se tornar o patriarca de grandes nações e eu mais humilde, conheceria a felicidade ao lado de minha Lia.

Há momentos em nossa vida em que precisamos ouvir uma voz que pode parecer esquizoide, mas como já esgotamos quase tudo dentro de nós, devemos provocar a vida, desafiar o destino, debochar do perigo e ... LECH LECHÁ!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um Largo Sorriso

Walhalla antes de ser o nome de um templo na Alemanha, muito apreciado pelo anticristo Hitler e que ironicamente guarda memórias de famosos judeus, era o nome do jardim paradisíaco para onde eram levadas as almas dos guerreiros vikings, tombados com honra e valentia em suas batalhas.

Seus espíritos eram resgatados nos campos de guerra por divindades de extraordinária beleza, com suas batas esvoaçantes e seus cachos sobre os ombros. Pareciam flutuar quando caminhavam e para o bem da comunidade, cada viking tinha a sua.

Houve vários momentos distintos em minha vida e de cada um guardo peculiaridades.

Eu me envolvera na importação de um equipamento de vôo que era um parapente motorizado, com um assento que podia levar até duas pessoas. Havia conhecido o comandante chefe das forças especiais e após um início frio, nossa amizade ganhou contornos de velhos amigos. Chefiava cerca de 200 homens que realizam missões impossíveis em qualquer parte do país. No meu conceito, pelo pouco que vi, era um grupo de loucos. Saltavam de pára-quedas e entre o céu e a terra, o que era um pesadelo para mim, eles faziam sorrindo.

Conseguimos o impossível nas repartições públicas de importação. Em uma ocasião, ele a paisana e eu de gravata, me apresentou como seu superior. O engraçadinho do funcionário gracejou:
- se você é o comandante dessa tal de forças especiais, eu sou a rainha da Inglaterra
Após apresentar seus documentos, que gelou o sangue do burocrata, retrucou
- Você ainda quer os documentos do meu chefe? Se ele mostrar, você vai ter que provar que é a rainha da Inglaterra.

Em poucos minutos saímos com os documentos em mãos. Faríamos uma apresentação do mercado brasileiro e do especial interesse do exército, para representantes da empresa produtora do equipamento, que viriam ao Brasil especificamente para esse encontro e eu precisava de um retro projetor.

Lia e eu éramos apenas um pouco mais que bons amigos. Falávamos constantemente e já contava com ela como certa nas horas incertas que eventualmente pudessem surgir. Festa no Olimpo!

Óbvio que o retroprojetor veio das mãos da Lia. Fui apanhá-lo na portaria de seu trabalho. Conversamos rapidamente, me desejou boa sorte, nos despedimos e iniciou sua caminhada de poucos metros de volta ao prédio.

Fiquei apoiado com um dos pés no estribo do carro, enquanto repousava meu queixo sobre os braços cruzados na capota, olhando aquele anjo se afastar. De repente os movimentos eram em câmara lenta. Empinada, parecia um puro sangue e eu fui tomado por um pensamento humano e másculo:

- Se ela olhar para trás é sinal que me quer. Nem eu sabia o quanto a queria.

Foram segundos eternos e angustiantes, parecia uma Valquíria levando a alma de seu guerreiro, o vento que vinha estranhamente do saguão junto com seu flutuar, balançavam sua saia e suas madeixas brincavam por sobre os ombros.

Eu não desviava meu olhar e mal piscava, quando já no topo da escada, com seu braço rente ao corpo, moveu sua mão em um zigue-zague, de “até breve” e seu rosto, voltado um pouco mais que para o lado, olhando para trás mostrou um discreto, porém INDISCUTÍVEL condescendente sorriso.

Mas eu!? Ah eu não! Em meu rosto estampou-se escancarado, para quem quisesse ver, um abusado e LARGO sorriso.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

De mecânico, de médico e de louco...

Um dileto amigo médico lembrou outro dia, palavras sérias e compenetradas da esposa de um paciente a seu marido, que após ter se auto medicado, não se sentia nada bem – “... a automedicação leva à morte!”

Passado o tempo e ainda que possa parecer jocosa, essa alegação reveste-se de seriedade quando nos deparamos com uma assustadora estatística de pessoas que não satisfeitas em se “consultar” com o balconista da farmácia, que nem técnico é, ouvem amigos, estranhos, pesquisam na internet, se prendem a mensagens alarmistas divulgadas na rede e muitas vezes seguem um instinto baseado em histórias que ouviam de seus avôs.

Ainda garoto, após assistir a um mecânico consertar meu carro e claro, com a arrogância e a petulância da juventude, aventurei-me a fazer o mesmo. Era uma época em que se regulava um motor como se afina um violão. Era preciso ter ouvido, escutar o motor, sentir sua “respiração”, conhecer o equipamento e basicamente saber o que está fazendo. Para resumir, não seria surpresa o final dessa história acabar na oficina.

Constantemente sou questionado por pacientes e amigos sobre uma matéria publicada em uma imprensa dita de credibilidade ou pescadas nas ondas etéreas da internet.

Em um desses artigos, um curioso dissecava as nefastas conseqüências da biópsia de próstata guiada pela ultra-sonografia. Como uma metralhadora giratória lançava ameaças de todos os tipos cujas causas teriam origem em um procedimento rotineiramente realizado a nível ambulatorial pelo mundo afora, já por dezenas de anos. Eu mesmo tenho uma casuística de biópsias de mama, próstata e tireóide que ultrapassa a casa de vários milhares, com mortalidade zero e morbidade medida em fração de uma unidade.

Por mais que eu tentasse fazer alguma associação da biópsia da próstata com insuficiência cardíaca congestiva (belo nome), não achava o caminho e me perdia nas tramas do interlocutor, tão alucinantes que eram. Tentei extrapolar para o câncer de mama que deve obedecer aos mesmos critérios médicos de decisão, mas em vão.

Há que se ter uma postura equilibrada, bom senso, conhecimento de causa para não tomar decisões de ouvido, não afinar todos pacientes sob um mesmo diapasão, não decidir por um procedimento com um horizonte pontual e também não perder o “timing”, por que fatalmente acabaremos com nossos pacientes na oficina do corpo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Atabrás, o Messias Brasileiro


Mais que a munição dos aliados, foi Ataturk, o pai dos turcos, a verdadeira pá de cal que enterrou por definitivo o Império Otomano. A partir do século XIII a onda muçulmana invadiu a Europa, norte da África, Oriente Médio e estendeu seus tentáculos por setecentos anos, indo até a Península Ibérica onde deixou suas marcas e uma linda herança cultural.

No final da primeira grande guerra fez-se a partilha do butim, porém a Turquia queria mais, cabendo a esse líder, um verdadeiro estadista, a reorganização daquela sociedade e seu resgate da idade média. Sem perder sua identidade muçulmana, Ataturk promoveu uma série de reformas, que de tão intensas e radicais ganhou nome próprio - Kemalismo, uma alusão ao seu segundo nome, Kemal – perfeição, maturidade – e que era, também como o nome “Ataturk”, uma invenção, por que até então, por norma, só existia o pré-nome, no caso “Mustafá”, um desconhecido que viria a se revelar um verdadeiro messias, morto pelas mãos de seu companheiro constante, o álcool, ironicamente libertado das garras do fanatismo islâmico pelo kemalismo.

Voltando nossos olhos agora para a terrinha dos Cabrais (que merda hein!), também aqui encontramos um líder político cujo nome vai para a história por, entre outras baixarias, ter desbancado o Piauí como símbolo de atraso, em favor do seu estado, o Maranhão.

Seu nome, diferente de Ataturk e por estranha coincidência, deriva de um parasita – José da Sarna, vulgo Sarney, com “Y”, à época, uma letra estranha ao nosso alfabeto. Esse é um país muito permissivo com as transgressões, desde administrativos até no vernáculo. O que Dilma fez ao optar por ser chamada de “presidenta” não foi criar um neologismo, longe que está de Guimarães Rosa, mas perpetrar um virulento ataque ao nosso idioma.

Em oposição ao personagem turco, o da sarna tudo faz para levar o país a um tempo de escuridão intelectual, social e moral. Sua trajetória política é um mar de oportunismos. Seus interesses foram a constante de sua vida e suas amizades efêmeras e falsas. Traiu seu povo, seus amigos, os princípios democráticos que tanto alardeia e contribuiu de forma singular para disseminar uma cultura nacional maquiavélica.

Eu sonho em encontrar uma lenda indígena tupiniquim que fale de alguma entidade mágica que ainda descerá dos céus, - “virá que eu vi” -, como dizia Caetano, para libertar seu povo do limbo da crueldade humana.

Há cerca de 2000 anos o mundo presenciou outra Primavera Árabe. A classe dominante era então representada pelos romanos que cobravam impostos absurdos de sua gente sem dar grandes coisas em troca. Quando mesmo o pão e circo já não eram suficientes, começou a brotar na alma dessa gente a semente da indignação. Sentimento que falta ao brasileiro!

Ansiava-se por uma salvação que literalmente caísse do céu. O campo fértil da ignorância foi o caldo de cultura que fez com que a cada momento, apontassem um salvador. Quando do alto da montanha, olhando a cidade de ouro, Jerusalém, Jesus se viu cercado por uma multidão, rapidamente se descalçou e pediu um burrico, pois assim rezava a lenda –“O messias viria seguido pela multidão de prosélitos, descalço e montado em um asno.” Perdoem-me a incursão nesse campo tão delicado, mas apenas componho a música, a letra está registrada nas escrituras.

No Brasil a natureza tem feito sua parte na produção de pragas, como essas enchentes em um pólo e a seca em outro, mas esse povo que é uma liga de várias etnias resiste bravamente.

Paradoxalmente para um ateu e homem do bem, rezo para que lhes falte o pão e o circo, que lhes exploda a indignação no peito e que lhes surja um “atabrás”, ainda que de pés na terra e dirigindo um calhambeque, mas que venha cheio de esperança, de razão, lógica e bom senso, para que no fim de tudo possamos nos curvar, não para pedir, mas para agradecer por uma graça alcançada. Amém.

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domingo, 8 de janeiro de 2012

À Lia, Lechaim


Poderia começar afirmando com tranqüilidade que o torno mecânico que Deus usou na confecção da Lia é de ouro e platina, foi usado apenas uma vez e está exposto em um pedestal lá no céu, mas vou optar por contar nossa história segundo minha ótica.

Conheci a Lia por uma trapaça do destino. Depois dos tempos das vacas gordas, havia procurado a sinagoga oferecendo meus préstimos na esperança de divulgar um trabalho e quem sabe colher alguns frutos, porque não?! Meus filhos haviam ido lá, também em busca de socorro, pois atravessávamos um período de vaca nenhuma.

Trouxeram um cartão de uma Lia, que não era a que minha seria, escrito nas costas o telefone de outra Lia, que sabia o destino já era minha, posto que de ninguém mais seria.

Nosso primeiro contato já foi uma longa conversa ao telefone que se prolongou pelos dias e semanas seguintes. Ambos somos pródigos na arte da conversa e não é a toa que Ilana não deixa ninguém falar.

Partimos para os e-mails e ficamos entre esse e o telefone por 2 ou 3 meses até que em um evento para os médicos que participavam do projeto que Lia, a minha, conduzia, tivemos a oportunidade de olhar um nos olhos do outro.

- É a cara da voz! – disse minha Lia. Eu engasgado fiquei sem voz e no Olimpo os deuses se riam!

A partir de então nossa conversa já era uma rotina diária. O único dia em que não nos falamos não existiu, foi apagado do nosso calendário e registrado no diário de bordo como uma falha que jamais deveria se repetir. Até que houve o momento que não mais nos víamos...separados. A sensação era de reencontro de almas de vidas passadas, passadas como uma só vida. Nossa existência juntos era uma imposição natural como é o oxigênio.

O que eu poderia dar àquela menina que já tinha de tudo em troca de tudo que ela me dava? Alguma coisa que ninguém pode dar antes de mim? Uma coisa só nossa e que selaria aquela união?

- Vou te dar um filho - disparei em uma pizzaria.
- impossível, me falta de um lado uma trompa e do outro um ovário
- vou tentar!
- ...
- pede outro guaraná.

Lia viria perdê-lo ainda nas primeiras semanas durante uma cirurgia para retirada de um tumor no rosto. Três meses depois, pela segunda vez em sua vida atrasa a menstruação. Ilana estava decidida.

Não foram poucos os percalços em nossas vidas, mas que só apertaram o nó da nossa união. Quando achava que a morte nem era assim tão feia e até uma boa companhia, Lia foi a deusa que me deu um sopro de vida. Vestiu-me com dignidade e me cobriu de beijos. Quando as coisas apertam e parece que o tempo vai fechar, Lia tem uma brilhante idéia que é perfeita para nós dois.

Com Lia vieram bons amigos e muito mais que alegria de viver, veio uma necessidade, uma determinação para viver a vida com a plenitude que ela exige de nós.

À Lia, le chaim!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Mulher Sem Bunda


“ - Essa mulher não tem bunda...!” Era ainda pequeno quando ouvi isso de meu pai. Nem quis olhar. Imaginei que pudesse ser a expressão traseira oposta a de um prognata. Ao mesmo tempo percebi nele uma inspiração profunda, o aperto dos lábios e o movimento rápido dos olhos.  A imaturidade me vez criar uma história que se adaptava às necessidades imediatas das minhas fantasias, sem uma análise mais cuidadosa e criteriosa da informação recebida.

A nossa mente faz isso. Nas muitas das vezes temos uma concepção das coisas que é difícil de mudar. É mais fácil adaptar o que vemos ao nosso universo do que ter o espírito flexível para aceitar o que não é espelho.

Vivemos hoje em um mundo onde a informação viaja tão rápido que em sua grande maioria carece de constatação e como ninguém quer ficar para trás, passe-se adiante como uma verdade incontestável.

Na defesa de tese de minha filha, há um episódio curioso. Há poucos anos, no meio de uma daquelas manifestações de palestinos em Israel, um jovem começou a vociferar em árabe, gesticulando como um louco. Mais do que ágil, um fotógrafo de um grande jornal registrou a cena e enviou via internet à agência central que imediatamente colocou a matéria na rede, copiada por outras agências menores, referindo-se ao ator como uma vítima da truculência do exército israelense. Minutos depois soube o fotógrafo através de seu intérprete que o jovem prometia a vinda de um messias, era um doente psiquiátrico e motivo de galhofa dos próprios manifestantes. O mal já estava ciberneticamente feito. Faltou maturidade para digerir os fatos.

Hoje, mais velho, mais condescendente e mais lento em quase tudo, procuro analisar sem precipitação os fatos que se apresentam de forma a poder curtir amigos que se fizeram ocultos por causa de uma primeira impressão mal digerida, calar e permitir que o silêncio possa clarear minhas idéias para nortear meus atos e mostrar os dentes em um largo sorriso no lugar de uma pequena ameaça.

Estava de plantão quando o Iraque foi invadido pelos EUA. Fiquei feliz pela queda de um anticristo, mas a vida já me havia feito mais experiente e fiquei como se diz, com um pé atrás, sabendo que este caíra, provavelmente pelas mãos de outro anticristo. O tempo mostrou que não existiam as armas prometidas, a bilionária reconstrução do país passa pelas mãos de contribuintes de campanhas políticas e a administração pelo crivo de pessoas que não sabiam nem mesmo o alfabeto local. Um exército de ditos terroristas foi criado pelo administrador do momento ao desfazer as forças armadas iraquianas em uma penada. Do dia para a noite, milhares de iraquianos armados e com as chaves do paiol, perderam sua função e capacidade de levar para casa o leite das crianças, por um capricho do salvador, que sob uma visão obtusa, veio para libertar.

A Inglaterra, representante da moral e bons costumes no além mar, têm em sua história atitudes que envergonham a raça humana. Entregou a Áustria para Hitler na esperança de se ver distante da briga que se avizinhava, mas pagou caro, recebendo por três meses sobre suas cabeças, as mensagens de agradecimento dos alemães através das bombas V1 e V2. Foi de extrema crueldade em meados do século 19, período da grande fome na Irlanda em virtude da praga na plantação das batatas, sua principal fonte de alimento, contribuindo para a morte por inanição de mais de 800 mil irlandeses. Ao agir por baixo dos panos na troca do Paraguai pelo Uruguai da Triplica Aliança e pelas palavras do seu embaixador ao declarar na Liga das Nações que só sossegariam com a eliminação do último paraguaio ainda no ventre materno. Dizimaram cerca de 90% de sua população masculina ativa. É claro que suas ações sempre foram pautadas pelas melhores das intenções, muitas das vezes mal interpretadas justamente pelos que se aprofundavam no tema.

Por exemplos como esses é que devemos aguçar nosso julgamento indo até bem fundo, no cerne das questões que surgem em nosso caminho para não cometer injustiças.

E lá estávamos papai e eu, agora já vovô e papai, sentados na orla de Ipanema tomando inocentemente uma água de côco, por vezes falando e outras curtindo a companhia um do outro, ouvindo o ruído das ondas e das ruas quando outra vez ele vaticina – “Aquela mulher não tem bunda” – dessa vez olhei e esperei um pouco para digerir o que significava dizer que aquela enviada do Olimpo não tinha bunda, quando veio a seu tempo, acompanhada de uma leve contração da comissura labial a complementação de seu pensamento – “A sua coluna vertebral desemboca em um poema de amor!”

Morro de saudades do meu pai.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dilemas de uma moça de Kartoum

A Primavera Árabe esperou que um verdureiro tunisiano desse a bandeirada de largada para o que está sendo considerada uma nova era do renascimento, desencadeada por causa de uma simples tentativa de extorsão em um país onde a lei e o bom senso não são traços comuns. Quem poderia imaginar poderosos impérios caindo como um castelo de cartas, pesadamente como uma jaca putrefata?

Não se esperava que tudo mudasse assim tão rápido nas mentes radicais que insistem em se abrigar na era paleozóica da moralidade. Ainda hoje no Afeganistão, a vítima de um estupro cumpre pena pela prática de sexo fora do casamento. Um tema que faria a festa nas mãos de cineastas comediantes italianos dos anos 60-70. Mas é uma triste verdade que mancha a honra da raça humana e com a qual não se pode coadunar.

Nas Arábias, nas Rocinhas ou nos Congressos surge uma questão de ordem, diante dessa ameaça que é o clamor de liberdade e justiça. Mas o que vem depois é melhor? Fará melhor? Fará diferente? Isso me traz lá do fundo da memória uns versos que tinham por fim ser um método mnemônico das expressões inglesas. Diz assim:

There was a lesbian girl from Kartoum
That took her palsy up to her room
Before turning off the lights she said
Who will do, with what and to whom?


Não queriam os manifestantes da Praça Tahir, a participação de entidades políticas ou religiosas, pois que deveria ser uma expressão da aspiração de mudanças das questões humanitárias. Precisavam de alguém para fazer alguma coisa por pessoas sem rosto.

Mas grupos politizados, policiados e ditos sagrados aguardaram apenas seu tempo. Hoje, os militares cuja função precípua deveria ser a proteção do país e seu povo, se arvoram como opção de governo, aliás, exatamente como iniciou a ditadura que acaba de ser apeada. A Irmandade Muçulmana tem tido mais adeptos do que ela mesma imaginara ter. Se a humanidade não fizer algo é possível que se caia em outro sono profundo antes de renascer.

Não se pode dizer que o futuro de Assad é incerto. No momento é das coisas a mais certa. Mas e o Lupi? Era certo também. Como a vítima afegã do estupro, o conselho de ética é que foi questionado. Juízes do STF discutem o sexo dos anjos enquanto os fichas sujas são julgados por Renans e Sarneys, encarnações do mal na terra. Funcionários de gabinete de políticos e representantes da comunidade são homens de negócios....de armas restritas ou não, isso pouco importa, prisões de segurança máxima são escritórios de traficantes.

E Israel com isso? Onde entra a moça de Kartoum no cenário israelense. É um país que não pode perder o trem da história, fazendo agora a opção certa de quem são seus parceiros. É hora de deixar de lado um passado de guerra e se entender com quem possa ser seu verdadeiro interlocutor. Essa é a chave e é preciso ter visão para identificar os grupos certos, mesmo porque se tem algo de certo, é que Israel vai ouvir falar de quem assumir o poder nas aldeias das Arábias.

Em cada canto, quem virá será melhor? Teremos no Congresso e nas Praças Tahir uma verdadeira mudança de paradigma ou simplesmente verdadeiros substitutos. Vai sobrar alguém entre as Sodomas e Gomorras, ou vamos despirocar como a pobre moça de Kartoum?

A Promessa do Tempo

Nem brigar comigo no trânsito as pessoas querem mais. Quando vêem que se trata de um senhor, passam a ser condescendentes e até fraternais. Só isso bastaria para confirmar que o meu tempo passou e que de fato envelheci. Mas na sua ironia e crueldade, assim é a vida e ainda passa sal na ferida.

Eu definitivamente não sou mais jovem, embora como queiram alguns, permaneça com uma estranha beleza. Estranha mesmo! Algo de maturidade, consciência e compreensão da natureza humana. É bem provável que a mente tenha embotado um pouco, tenho me surpreendido com certa falta de equilíbrio na bicicleta, a visão, nossa, essa chegou a quase 5 graus em cada vista, quando acordei vi que já havia chegado à idade da próstata, que agora não sou mais reprodutor, apenas um bom amante, felizmente, mas a perspicácia e a capacidade de entendimento ainda permanecem aguçadas.

Não, não! Por favor, não me tome como um emotivo perturbado. Essa qualidade não calça meu pé. Não mais se descarrega a dor d’alma nos embalos das noitadas, essas já não nos pertence, muitas vezes estamos entregues ao cansaço, à dor, à filha, à angústia, a tantos outros e outros tantos. Não era assim nos tempos passados.

Passo os dias na esperança de um só dia e quando chega, passo de novo os dias... Minha mulher chegou aos 50, mas como ela mesmo diz, e daí!? Eu a vejo uma bela jovem, quando nem preciso disso, porque a olho como a paixão da minha vida, como o néctar que sacia a minha sede e olha, sinto muita sede!

Não posso esquecer que quando a conheci, a sensação era de reencontro com alguém cujo amor já me pertencia de outras eras. Se for ou não é uma questão subjetiva, de crença religiosa. A realidade era o que eu sentia e ponto, pronto!

Prometo que não volto a falar do tempo, agora, sobre o amor que lhe dedico com inefável prazer, prometo que falarei sempre.

sábado, 26 de novembro de 2011

Poemeu Laila tov le Lia Tova

Essa mulher maravilha
Que tão tarde conheci
Foi por certo minha amada
Em outra vida que eu vivi

E se foi assim que foi feito
É por que assim que se quis
Pode não ter sido perfeito
Mas é desse jeito que eu sou feliz

Hamurabi, o Zé e a Rocinha (Resposta Editorial Globo)

Quem conta um conto aumenta um ponto, diz o dito popular, imagine então uma coleção de informações, passadas de boca a boca por centenas de anos, o quanto de pontos não teria acumulado.

Embora não possa ser lida como fonte fidedigna de informações, a bíblia traz o enredo do que pode ter sido uma parte da história, servindo mais pelos seus simbolismos. Até mesmo sua ética, em vários episódios, deve ser questionada pelo ângulo da modernidade.

Por trazer um pensamento de milhares de anos, presa a conceitos arcaicos, peca por vezes em seu conteúdo moral, como quando Lot ofereceu à choldra que batia a sua porta, sua mulher e filha desde de que não tocassem em seus amigos, representados nessas mil e uma noites, como anjos com procuração do divino. Uma atitude abominável e impensável nos dias de hoje sob a ótica de qualquer povo.

Por volta desse tempo, cerca de 1700 AC, viveu um imperador amorita que uniu as diversas cidades estado, respeitou as religiões das cidades conquistadas e desenvolveu a agricultura, mas o feito tido como o mais significativo foi a edição de um código de leis, baseadas nos princípios sumérios da Lei de Talião, em verdade jurisprudências, conhecido como Código de Hamurabi. Haviam agora regras baseadas nas experiências do cotidiano, que deveriam ser seguidas. Quem não o fizesse pagaria fisicamente caro por seu erro. Simples assim.

De volta a atualidade e frente a questão das favelas, uso com frequência um chavão cruel: Você pode tirar o indivíduo da favela mas difícil é tirar a favela desse indivíduo.

Em um país que tem como máxima a Lei de Gerson, que os atos de corrupção estão incrustados na alma da administração do estado e que se mede em bilhões de reais, que tem sua terceira densidade populacional sobre palafitas, onde a tuberculose é endêmica apenas a poucas dezenas de metros de condomínios de classe média-alta, onde a incidência de relações incestuosas assusta até mesmo os mais vividos, onde o caos administrativo é a expressão da cirrose social em que vivemos e onde o IDH ombreia países africanos, a chance de uma ação policial, por mais bem sucedida que tenha sido, ter um final feliz é muito pequena se a continuidade não for uma mudança radical no pensamento desse povo.

Há que se implantar um sistema educacional rigoroso de baixo para cima e uma repressão desproporcional de cima para baixo. Lugar de criança é na escola e de bandido na cadeia. Trata-se de toda uma cultura que deve perecer para dar lugar a um comportamento individual ancorado na ética, para então esse sentimento de retidão contaminar toda nação.

Já tive a oportunidade de caminhar pela Rocinha e ver pessoalmente o desprezo da maioria pela higiene e bons costumes. Essa promiscuidade associada ao padrão cultural e pela densidade desumana é um caldo de cultura para o crime, que já assistimos renascer em outras favelas, como no Complexo do Alemão.

A dor é ver a decepção daquele jovem que há quase 40 anos estava convicto de que o povo unido não seria vencido. O foi pelo conjunto de qualificação negativas inerentes ao ser humano.

Pode parecer irônico ouvir isso da boca de um ateu, mas o homem é uma experiência divina que não deu certo (outra vez o simbolismo).

Gosto desse tal de José Beltrame, mas no episódio do Alan Turnowsky, que foi inocentado e teve seu processo arquivado, sua atuação foi no mínimo dúbia.

Ou está certo do desvio do delegado e encobriu informações ou está convicto de sua retidão e por questões que não me atrevo a tentar entender, não se postou ao lado de seu par.

Esse país ainda tem uma grande caminhada pela frente. Voltando aos exemplos bíblicos, esse povo precisa passar seus 40 anos no deserto (simbolismos) e como um condor, renascer de suas próprias cinzas.

Em tempo, gostei muito de seu artigo.

Atenciosamente,

Arnaldo Welikson - médico

welikson.blogspot.com

sábado, 19 de novembro de 2011

Fora da Lei

Gostaria de encher o peito e gritar a todo pulmão que tenho orgulho de ser brasileiro. Assim como eu, milhares de outros sentem o mesmo pesar, o nó apertado na garganta, a voz contida, os olhos já secos e apenas uma nesga de esperança n’alma.

Vivemos como retirantes em terra de ninguém. É nisso que se está transformando o Brasil. Um lugar sem lei onde o que vale é levar vantagem em tudo não importando como, o preço que se paga, nem a quem ou a quantos possamos atingir. Somos herdeiros dessa maldita cultura.

A onda de violência e criminalidade se espalha por todo país como um vírus mortal. O cidadão de bem não tem para onde correr nem a quem pedir socorro. Estamos entregues a quadrilhas organizadas que tomaram o que queriam e também o poder administrativo do país. As casas da lei estão invadidas por maus elementos que só visam à própria vantagem, fugindo de suas promessas, dando as costas a seus companheiros e negando seus compromissos com o povo.

Ou a reserva moral da nação toma a lei e a ordem em suas mãos ou teremos instaurado o caos em nosso meio de tal maneira que em breve estaremos vivendo entrincheirados e em guetos. Não existe tanta impunidade sem o beneplácito das autoridades de segurança, não se exerce tão acintosamente o papel do bandido se não houvesse convicção de que essa é a nova ordem e a nova moral.

Com muito maior desrespeito que um salário vergonhoso, alguns delegados estacionam seus automóveis importados e incompatíveis com seus ganhos em frente ao prédio da lei onde trabalham indiferentes a suspeição e certos do poder absoluto.

Assim como eu tive minha clínica assaltada por uma quadrilha que já assombra centenas de outros consultórios, milhares de trabalhadores são roubados todos os dias e de todas as formas.

É fundamental que os segmentos da sociedade e cada um de seus membros se associem nessa luta de forma a restabelecer os padrões éticos e morais que constroem uma grande nação e que outra vez, cada um de nós possa voltar a sentir orgulho de ser brasileiro.